O Miami bass e o funk carioca

Desde meados dos anos 80, o rap feito nos guetos de Miami incorporou a gíria de rua local, explorou ao máximo uma temática sexual explícita e incorporou uma batida eletrônica nitidamente inspirada no funk dos anos 70. Com isso, eles criaram uma sonoridade diferenciada dentro do universo do hip-hop, que ficaria conhecida como som de Miami ou “Miami bass”.
Essa música exerceria a partir da virada dos anos 80 para os 90 uma forte influência sobre o funk produzido na periferia do Rio de Janeiro. Desde a década de 70, São Paulo e Rio apresentavam uma movimentação cultural em torno da black music. Na capital paulista, se destacavam os bailes comandados pela equipe de som Chic Show. No Rio, os “Bailes da Pesada” começaram no Canecão e depois migraram para a periferia, comandados por equipes de som como Black Power e Furacão 2000. Os bailes eram animados principalmente pelas novidades da música negra dançante norte-americana.
No final dos anos 80, aconteciam cerca de 700 bailes funk nos finais de semana no Rio de Janeiro e nas cidades próximas, frequentados por aproximadamente um milhão de jovens [fonte: VIANA]. O antropólogo Hermano Vianna, em seu estudo sobre o fenômeno, comentou que “o baile funk é, principalmente, uma atividade suburbana. Existem alguns bailes realizados na Zona Sul, geralmente localizados perto das favelas, e frequentados por uma juventude proveniente das camadas de baixa renda, em grande parte negra (exatamente como nos bailes suburbanos), e nunca de classe média”. Nos anos 90, esse cenário se alterou a partir do momento em que o “funk carioca” entrou na moda e surgiram versões dos bailes que atraíram a juventude classes média e alta.
DJ Marlboro é um dos principais expoentes do funk carioca
Os bailes funks não se limitaram ao eixo Rio-São Paulo. Eles chegaram também a Belo Horizonte, Porto Alegre e Salvador, onde inspiraram o surgimento dos blocos afros, como o Ilê Aiyê.
A chegada dos sucessos do Miami bass incentivou os frequentadores, principalmente na capital fluminense onde a tradição dos bailes funks permaneceu mais forte, a fazerem versões em português das canções. Começavam a nascer os “melôs”, que constituíram o repertório do “funk carioca”, “batidão” ou “pancadão”. Apesar da influência da sonoridade e dos temas do rap, o funk carioca não se caracterizou como parte do movimento hip-hop.


Em meados dos anos 90, os melôs do funk carioca começaram a se tornar conhecidos nacionalmente com os trabalhos de artistas como Claudinho e Buchecha, DJ Marlboro e Tati Quebra Barraco, entre outros. Um sucesso que consagrou o que tem sido uma das principais formas de lazer dos jovens de baixa renda dos subúrbios cariocas desde os anos 70.